sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Pensados no carro...

Quantas vezes "Deus" se aproximou de ti a correr, atarefado, e te perguntou… “este Metro dá na paragem do autocarro para o Algarve?...”

Entre a pressa de entrar no dito Metro, o não perceber bem o que “Deus” perguntava e, ainda menos, saber qual a paragem do autocarro para o Algarve, entrei no Metro, atrás da Mariana que, no entretanto, não tinha dado por “Ele”. Ainda assim comentei… eu nem percebo o que “Ele” diz…

Ouvi, à distância de alguns passos, a mesma pergunta ser dirigida a “outro” e soar qualquer coisa como “jardimxologico” e, o “outro”, muito mais entendido em paragens e autocarros para o Algarve responder: sim! dá… dá! A paciência “destoutro” também não era lá “aquelas coisa”…

“Deus” entrou, ficou perto de mim trocando mais algumas palavras de confirmação com o “outro”… quando chegámos à minha paragem, olhei na direcção da porta e vi, por cima, o diagrama das linhas do Metro. Lá estava… nas paragens da Praça de Espanha e do Jardim Zoológico o desenho de um autocarro… para português burro ver!

Olhei para o lado e disse em voz baixa … a próxima paragem já é a Praça de Espanha… “Deus” semi-olhou para mim com um olhar triste e acenou a cabeça… Eu fiquei triste, não do olhar dele, mas do meu olhar para mim própria… meu Deus, como é que o acto de apanhar um Metro é mais importante do que parar e ajudar alguém que precisa de ajuda… imaginei-me num País que não meu, não sabendo bem falar a língua e pedindo ajuda, a um passante igualmente com pressa e sem tempo para me aturar...
Prometi a mim mesma que tinha que passar a ter mais tempo para dar… naquele momento senti um quase chamamento… uma vontade de praticar efectivamente a bondade, amizade, whatever, para quem precisa, em todo o lado em que eu estivesse… por exemplo, iria encarar a minha reunião dessa tarde, que ficou adiada para o dia seguinte pela 3ª vez, com bondade… e tentaria lembrar-me disso todos os dias.

O “Deus” que me abordou hoje, era negro, falava mal português e queria ir para o Algarve… vestia mal e, provavelmente, era trabalhador das obras… mas o olhar era triste, de uma pessoa negligenciada pela sociedade… por mim também… e Deus não se negligencia.
Mentalmente disse: Deus o acompanhe e o ajude mais do que eu. Eu vou só tentar ser melhor mostrando da minha simples humanidade o Deus que também tenho.
A Mariana não deu por nada… mas também já leu este texto e, nos dias seguintes, sempre que eu fiquei com olhar estranho, perguntou-me “estás a praticar?”…

2005

Sem comentários: